Quem acompanhou Fortaleza nos anos mais dramáticos de violência talvez precise de um tempo para processar os números que chegaram em 2026. A capital cearense, que chegou a figurar entre as quatro cidades mais violentas do Brasil, encerrou o primeiro quadrimestre do ano com uma queda de 60,8% nos Crimes Violentos Letais e Intencionais (CVLIs), segundo dados da Superintendência de Pesquisa e Estratégia de Segurança Pública do Ceará, a Supesp. Em termos práticos, isso significa que Fortaleza saiu de 265 mortes violentas registradas entre janeiro e abril de 2025 para apenas 104 no mesmo período de 2026. Uma diferença de 161 vidas que não foram ceifadas.
Um histórico reescrito mês a mês
Os números continuaram surpreendendo ao longo do ano. Março de 2026 registrou redução de 64% em comparação ao mesmo mês do ano anterior. Abril foi ainda mais marcante: apenas 17 CVLIs na capital, contra 58 em abril de 2025, uma queda de 70,7% que fez do período o mês com menos mortes violentas em Fortaleza desde o início da série histórica. Não à toa, o governador do Ceará, Elmano de Freitas, afirmou ao apresentar os dados do quadrimestre que a expectativa é terminar o ano entre as dez capitais menos violentas do país, objetivo que pareceria utópico há apenas dois ou três anos. E não se trata de episódio isolado: os dados de roubos seguem a mesma trajetória, com queda de 68,5% em Fortaleza apenas no primeiro trimestre.
O que explica essa virada?
Por trás dos índices há uma estratégia que começou a ser montada com mais consistência a partir de 2025. O Programa de Cumprimento de Mandados de Prisão, o Procumpri, regulamentado em dezembro de 2025 pelo governador Elmano de Freitas, concentra ações em endereços de foragidos da Justiça com foco direto nos grupos criminosos. Só em 2025, o programa resultou em 1.935 capturas de pessoas com mandado em aberto no estado, segundo a Secretaria da Segurança Pública e Defesa Social do Ceará (SSPDS). Além disso, o governo investiu em concursos para recomposição de efetivo, aquisição de novos equipamentos, gratificação por horas extras e nivelamento do vale-refeição para todos os servidores das forças de segurança, medidas que, segundo os gestores, resultaram em maior engajamento operacional.
Fortaleza em perspectiva nacional
O impacto positivo transcende as fronteiras do estado. O Ceará registrou, no primeiro quadrimestre de 2026, a maior redução de roubos entre todas as unidades federativas brasileiras, com queda de 59,02%, frente à média nacional de 15,72%, de acordo com dados federais citados pelo próprio governador. Nos CVLIs, o estado ficou com a segunda maior redução do país no período, de 37,16%, enquanto o Brasil apresentava 13,17%. Esses dados colocam o Ceará em posição de destaque no debate nacional sobre segurança pública, com um modelo que, mesmo longe do ideal, tem demonstrado resultados consistentes e verificáveis ao longo dos últimos meses. A questão agora é saber se a trajetória se mantém até o final do ano.
O que ainda preocupa
Nenhuma conquista, porém, apaga os desafios que persistem. Fortaleza ainda convive com tráfico de drogas, episódios de violência ligada ao crime organizado e com a pressão de grupos que operam nas periferias da cidade e da região metropolitana. No fim de junho de 2026, por exemplo, policiais foram investigados após questões sobre a preservação de uma área com cerca de 290 mil pés de maconha em Acopiara, caso que acendeu um alerta sobre vulnerabilidades internas nas forças de segurança. Além disso, a desigualdade social e o desemprego que ainda atingem parcelas expressivas da população fortalezense seguem sendo fatores estruturais que, se não enfrentados, tornam qualquer conquista na segurança pública reversível no médio prazo.
O que os números significam para o cidadão comum
Para quem mora em Fortaleza e viu bairros inteiros em situação de quase toque de recolher informal em anos anteriores, a mudança é perceptível no cotidiano. Segundo pesquisa da Prefeitura de Fortaleza divulgada em 2026, a sensação de segurança entre os moradores vem crescendo, ainda que de forma mais tímida do que os indicadores objetivos sugerem. Isso tem a ver com a defasagem natural entre o que os dados mostram e o que a população percebe no dia a dia, especialmente em bairros que sofreram traumas mais profundos. A sustentabilidade dos resultados depende, portanto, não apenas da continuidade das operações policiais, mas também de políticas sociais, educação e geração de emprego para os jovens mais vulneráveis, que seguem sendo o público mais exposto à violência em todos os seus sentidos.
Fortaleza saiu do ranking das 10 capitais mais violentas
Um dado sintetiza bem o momento: Fortaleza deixou em 2026 o ranking das dez capitais mais violentas do Brasil, posição que ocupou por anos consecutivos e que havia se tornado quase uma marca involuntária da cidade. Segundo fontes da segurança pública estadual, a capital cearense ocupa atualmente a 17ª posição entre as capitais no indicador de CVLI, um avanço expressivo em relação ao quarto lugar que ocupava no passado recente. Esse deslocamento, além de simbólico, tem impacto direto na imagem de Fortaleza diante de turistas, investidores e de qualquer pessoa que considere morar, trabalhar ou visitar a cidade. Para uma capital que vive do turismo litorâneo, do crescimento imobiliário e da atração de negócios, esse é um dado que vai muito além da segurança pública e se conecta diretamente ao desenvolvimento econômico.
O desafio de consolidar os avanços
Manter os índices em queda ao longo do segundo semestre e chegar a 2027 com uma trajetória confirmada de redução da violência é o próximo passo. O governador Elmano de Freitas afirmou que pretende continuar investindo em reestruturação das forças de segurança e que o Programa de Metas Integradas de Segurança Pública, o Misp, seguirá como espinha dorsal da estratégia estadual. Ao mesmo tempo, Fortaleza vive um ano politicamente intenso, com as eleições estaduais se aproximando, e o desempenho na segurança pública tende a ser um dos principais temas do debate eleitoral. O que os moradores querem, no fundo, é simples: que os números que chegam nos boletins se convertam em paz real nos bairros.
Fontes consultadas: Superintendência de Pesquisa e Estratégia de Segurança Pública do Ceará (Supesp): https://www.supesp.ce.gov.br | Secretaria da Segurança Pública e Defesa Social do Ceará (SSPDS): https://www.sspds.ce.gov.br | Portal GCMais: https://gcmais.com.br | Metrópoles: https://www.metropoles.com.br | Diário do Nordeste: https://diariodonordeste.verdesmares.com.br

