O dólar começou 2025 acima de R$ 6 e encerrou o ano cotado a cerca de R$ 5,49, com queda de 11% frente ao real. Segundo Marcio Alaor de Araujo, executivo do mercado financeiro, oscilações dessa magnitude mostram por que a proteção cambial deveria fazer parte da gestão de qualquer empresa exposta à moeda estrangeira. Importadores, exportadores e companhias com dívidas em dólar podem ver margens inteiras mudarem de sinal em poucos meses.
Medir a exposição antes de proteger
O primeiro passo é identificar onde a empresa está exposta ao câmbio. Importadores perdem quando o dólar sobe, porque os insumos ficam mais caros. Exportadores perdem quando a moeda cai, porque recebem menos reais por cada venda. Empresas com dívidas em moeda estrangeira veem o saldo devedor crescer a cada alta do dólar, mesmo sem contrair novos empréstimos.
Muitas empresas, no entanto, não conhecem com precisão a própria exposição. Contratos de fornecedores atrelados ao dólar, preços de commodities cotados em moeda estrangeira e concorrentes importados também afetam o resultado de forma indireta. Mapear entradas e saídas em cada moeda, com prazos e valores, é a base de qualquer estratégia de proteção bem construída.
Os principais instrumentos de hedge
O termo de moeda, conhecido no mercado pela sigla NDF, é um contrato firmado com um banco que fixa a taxa de câmbio para uma data futura. Os contratos futuros de dólar negociados na B3 cumprem papel semelhante, com padronização e ajustes diários. As opções de compra e venda de moeda garantem proteção contra movimentos extremos, mediante o pagamento de um prêmio.
Na percepção de Marcio Alaor de Araujo, a escolha do instrumento depende do perfil da exposição, do prazo e da capacidade da empresa de lidar com ajustes de margem e custos. Contratos com bancos oferecem flexibilidade de valores e datas, enquanto instrumentos de bolsa trazem mais transparência de preço. Opções protegem sem eliminar o ganho de um movimento favorável, mas custam mais.

O hedge natural
Nem toda proteção exige derivativos. O hedge natural ocorre quando a empresa equilibra receitas e despesas na mesma moeda. Uma exportadora que também importa insumos, por exemplo, reduz a exposição líquida ao câmbio, porque parte das perdas de um lado é compensada pelos ganhos do outro. Financiar operações de exportação em dólar segue a mesma lógica.
Buscar o equilíbrio entre entradas e saídas em moeda estrangeira costuma ser a forma mais barata de proteção. A estratégia, porém, depende de prazos compatíveis. Receitas que entram em dezembro não protegem pagamentos que vencem em março, e o descasamento entre datas pode exigir instrumentos complementares para cobrir os períodos descobertos.
Quando a proteção vira especulação
Um dos riscos mais sérios é transformar o hedge em aposta. Empresas que contratam derivativos em valores maiores do que a exposição real, ou que tentam lucrar com a previsão do câmbio, passam a especular. Em 2008, companhias brasileiras de grande porte sofreram perdas bilionárias com operações cambiais que excediam suas necessidades de proteção.
Como sublinha Marcio Alaor de Araujo, a política de proteção precisa ser aprovada pela diretoria e, quando houver, pelo conselho, com limites claros de volume, prazo e instrumentos permitidos. Separar quem contrata as operações de quem as controla e reportar periodicamente as posições evita que decisões individuais exponham a empresa a riscos que ninguém autorizou.
Proteção cambial como parte da estratégia
A proteção cambial não elimina o impacto do câmbio no longo prazo, mas dá previsibilidade para planejar preços, orçamento e investimentos. Saber o custo dos insumos dos próximos meses ou a receita garantida de um contrato de exportação permite negociar com clientes e fornecedores com mais segurança, sem depender da cotação do dia.
De acordo com Marcio Alaor de Araujo, empresas que tratam o câmbio como risco a ser gerido, e não como fator de sorte, atravessam períodos de volatilidade com mais estabilidade. A disciplina de proteger apenas o que é necessário, seguindo regras definidas, preserva margens e evita surpresas que poderiam comprometer anos de resultados construídos com esforço.

