Em um contexto marcado por juros altos e crédito mais caro, empresas endividadas viraram alvo frequente de compradores estratégicos. Pedro Daniel Magalhães, executivo com atuação no mercado financeiro, crédito estruturado e gestão corporativa, comenta que dívida em excesso, paradoxalmente, pode tornar uma empresa mais barata de comprar do que de salvar sozinha, inclusive para fundos especializados nesse tipo de operação.
Quando o passivo de uma empresa cresce mais rápido do que sua capacidade de gerar caixa, o valor de mercado tende a cair antes mesmo de qualquer sinal de crise operacional aparecer nos resultados divulgados ao mercado e aos investidores. Para quem tem caixa disponível e apetite para negociar, esse desconto no preço muitas vezes compensa o risco assumido na operação de compra.
O desconto que a dívida cria no valor de uma empresa
O valor de uma empresa para fins de aquisição, indica Pedro Daniel Magalhães, costuma ser calculado primeiro sem considerar suas dívidas, no que o mercado chama de valor da operação, e só depois se subtrai o endividamento líquido para chegar ao preço que o comprador de fato paga pelas ações da companhia.
Quanto maior a dívida líquida, menor o valor que sobra para os atuais donos do negócio, ainda que o valor da operação em si continue relevante para quem está comprando. Em alguns casos, o preço pago pelas ações se aproxima de zero, mesmo com a empresa mantendo ativos relevantes e uma operação de peso no mercado em que atua.
Por que um comprador pode preferir negociar direto com os credores?
Em situações mais graves, sustenta Pedro Daniel Magalhães, o comprador negocia menos com os sócios originais e mais com os próprios credores, propondo quitar parte da dívida em troca de participação ou controle da empresa. Uma negociação desse tipo costuma acontecer antes mesmo de qualquer pedido formal de recuperação judicial ser protocolado na Justiça.

Quando o processo já está em curso, o plano de recuperação pode prever exatamente esse tipo de conversão de dívida em capital, transformando quem só emprestou dinheiro em novo controlador do negócio adquirido. Para o credor, essa troca costuma valer mais do que insistir em receber o valor integral de um crédito que talvez nunca seja pago por inteiro.
O que atrai o investidor além do preço baixo?
Preço baixo sozinho raramente justifica a compra de uma empresa endividada, porque o comprador também herda passivos, contratos e, às vezes, disputas judiciais junto com o negócio adquirido. O que costuma atrair de fato são ativos difíceis de replicar, como marca consolidada, base de clientes fiel, licenças específicas, contratos de longo prazo ou tecnologia proprietária já validada pelo mercado em que a empresa opera.
Uma carteira de clientes recorrente ou uma posição relevante numa cadeia de fornecimento, examina Pedro Daniel Magalhães, pode valer mais para um concorrente direto do que para o mercado financeiro em geral, justamente porque encurta anos de investimento e relacionamento que seriam necessários para construir o mesmo ativo do zero, começando de uma base de clientes vazia.
Como o momento certo de negociar muda o resultado?
Negociar antes de um pedido formal de recuperação judicial costuma dar mais liberdade às partes envolvidas, sem as regras rígidas de prazo e votação em assembleia que a lei impõe uma vez que o processo é aberto oficialmente perante a Justiça. Depois do deferimento, a negociação passa a depender também da aprovação de credores organizados em classes distintas dentro do processo, o que naturalmente estende os prazos.
O timing dessa decisão, pontua Pedro Magalhães, costuma pesar tanto quanto o preço final acertado entre as partes envolvidas na operação de compra. Empresas que se anteciparam e buscaram um comprador antes de esgotar totalmente o caixa tendem a fechar negócios bem mais vantajosos do que aquelas que só reagem depois que a crise já está instalada e o poder de negociação já se perdeu.

